quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Bilhete Dourado

"Those people keep a-movin’, and that’s what tortures me.”


“Vai dar entrada na linha número um, o comboio Intercidades com destino a Porto-Campanhã”.
Desligou o microfone após anunciar o comboio. Mais um dos muitos que anunciava diariamente.
Limpou o suor da cabeça calva. O dia estava quente e a única aragem fresca era provocada pelos comboios sem paragem que passavam a toda a velocidade.
Costumava ficar a olhar para eles até desaparecerem na curva da linha férrea. Secretamente desejava que o levassem.
“Pára! Deixa-me embarcar! Deixa-me partir contigo e abandonar esta vida monótona!”
As campainhas já tocavam anunciando que o comboio se aproximava. Pegou na bandeira vermelha e dirigiu-se à plataforma.
As pessoas juntavam-se e esperavam ansiosamente pela chegada do comboio.
Ele perguntava-se que sítios iriam visitar, que aventuras iriam viver, que histórias iriam colecionar.
A sua vida estava estagnada. Um emprego que o deprimia, um salário parco, um velho apartamento perto da estação, um coração vazio.
Queria algo novo. Esta não era a vida que desejava. Desejar era tudo o que fazia mas sem réstia de esperança.
- Desculpe…
A voz feminina despertou-o da melancolia.
- Por favor, fique com isto. Percebi que a minha vida, afinal, começa aqui.
A mulher loira esticou-lhe um papel, sorriu e correu para junto de um homem que beijou apaixonadamente.
Ele olhou o papel na sua mão. Os seus olhos abriram-se surpresos.
Nas suas mãos tinha um bilhete com destino ao Porto no comboio que acabava de parar na estação.
Poderia esta ser a sua oportunidade?
Aquilo por que tanto ansiava estava na sua mão. Não tinha nada a perder.
O ar quente que emanava do comboio não o deixou sonhar mais alto. Tinha de entregar o bilhete na bilheteira.
Observou a plataforma. As últimas pessoas subiam para o comboio. O comboio das aventuras, dos sonhos, da esperança, da vida.
E ele ia ficar ali, a ver a sua vida passar sem chegar à próxima paragem.
Estava na hora de levantar a bandeira e deixar o comboio partir.
Apertou-a com força nas suas mãos. Largou-a, deixando-a cair.
Entrou no comboio, sentindo a porta fechar-se nas suas costas.
A vida era ele que a traçava.
No bolso apenas a carteira e o telemóvel.
Na mão o seu bilhete dourado.
No coração a excitação de um recomeço.

A viagem da sua vida estava prestes a começar.

comboio rápido

1 comentário :

  1. Este texto foi muito interessante. Retrata a vida de muitos de nós e acho que qualquer pessoa de alguma forma se pode identificar com a necessidade de deixar uma parte da sua vida para começar algo de novo, mesmo que completamente desconhecido. Obrigado por esta partilha e continua os excelentes textos!

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